Bio

Ela é cantora, compositora, percussionista, ela é atriz. Filha de Oxum, puro dengo, pura doçura. Voz forte quando fala, voz intensa quando canta. Filha de Ogum, mulher guerreira, de uma linhagem de muitas mulheres de luta. Nascida em Belo Horizonte, Janaína Moreno é Brasil, festa, comoção. Não há quem a assista cantar que não se encante.

Nossa história começa no século XIX. Sua bisavó, uma pataxó nascida em Belmonte (foz do Rio Jequitinhonha na Bahia), se apaixona por um negro de Benguela de nome José e tem com ele vários filhos. Dentre esses, Sofia, que decide seguir com seu marido, também de nome José, o curso do Jequitinhonha até parar no interior de Minas Gerais. Vivem uma longa história até que José some no mundo. Sozinha, Sofia passa a se dedicar à igreja onde conhece um padre – José – por quem se apaixona e vive uma relação secreta e tórrida.

Já com alguns filhos trazidos do primeiro casamento, ela o acompanha como ajudante. Para manter o segredo da relação, mudam de cidade algumas vezes até que, não podendo mais ocultar a gravidez, dá à luz a um casal de gêmeos. O padre, apaixonado pela mulher, e temendo o preconceito dos fiéis, decide renunciar à batina. A renúncia não é suficiente, e as ofensas se tornam insuportáveis. É assim que ele, já não vendo outra saída, entrega uma maleta de dinheiro para Marinalva, uma das filhas de Sofia, para que ela fugisse para Belo Horizonte, onde ele acreditava que se encontrariam em breve e onde não seriam importunados. Marinalva parte na frente com uma fortuna nas mãos e seus irmãos gêmeos no colo.

Estabelecida na capital, começa a organizar a vida. Mais tarde encontra-se com a mãe que lhe traz a notícia de que José, o padre, havia morrido a caminho. Estamos no começo dos anos 1960 e Marinalva tem pouco mais de 14 anos. Pouco depois, ela também encontra um José com quem tem filhos. Mas é do relacionamento com o segundo José, mantendo a trágica tradição de Josés, que nasce Janaína Moreno. Como na longa tradição de sua família de mulheres fortes, Janaína é criada somente pelas mulheres: sua mãe, principalmente, e sua avó, que vez por outra cuida da saúde da neta com métodos indígenas.

Não bastasse a genealogia romanesca, Janaína chega ao mundo para arrepiar. Bem novinha, aprontava das suas. Conta-se que certa vez, proibida de jogar no bicho (como queria), fantasiou o coleguinha de mendigo, conseguiu algum dinheiro, apostou. E ganhou. Chegou em casa feliz e sua alegria a denunciou. “Eu sabia esconder o que ia fazer, mas não me importava de ocultar o que tinha feito. Por essas e outras, sua mãe costuma dizer que se ela não fosse artista, seria bandida tamanha era sua imaginação. Mas foi assim também que Janaína Moreno começou suas atividades como atriz. Primeiro, aos 7 anos num grupo chamado Arco Íris. Sua avó, muito animada, a levava para atividades culturais diversas. Certamente, foi com ela que se acostumou a gostar de tudo o que é brasileiro. Fazia capoeira, percussão, brincadeiras de roda.

Entra para o curso profissionalizante de teatro da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 1993 estreia sua primeira peça: Antônio Conselheiro, dirigida por Ronan do Vale. Em seguida, Ingressa na Spasso escola de circo. Já desenvolvia suas atividades musicais, com grupos como o Com Tudo Junto e outros, onde cantava temas de teatro. Casa-se com um jovem palhaço, torna-se Hare Krishna. Desse casamento, nasce Cassiel.

A partir de 2003, intensificam-se as atividades teatrais. Participa dos elencos de A peste, adaptação do romance de Albert Camus (2003). Em seguida: Krapp, de Samuel Beckett, a peça de conclusão de curso do Teatro Universitário (TU). Participa como atriz substituta para o Grupo Galpão na peça Um homem é um homem, de Bertoldt Brecht com direção de Paulo José. Uma de suas últimas peças é O último voo do flamingo, encenada em 2008 e inspirada no romance homônimo de Mia Couto.

Mas foi Paulo José, durante as encenações de Um homem é um homem que certa vez lhe disse: “Você é muito cantora. Invista!” E Janaína investiu. Começou a cantar no Samba da Madrugada, um projeto de Mestre Jonas (in memoriam), Miguel dos Anjos e Dudu Nicácio, onde incendiou as noites belorizontinas. Se apresentou em diversos espaços tradicionais da capital mineira. Em seguida, participou do concurso “Novos bambas do velho samba”, no bar Carioca da Gema, tradicional casa de samba carioca. E ganhou. Seu prêmio lhe rendeu um público novo, o do Rio de Janeiro, cidade onde passou a morar e que a projetou para o mundo.

Ela conta de shows, em diversas cidades do Brasil, em navios e também em outros países como Angola, Noruega, Espanha. E em sua bela carreira, já esteve no palco ao lado de cantores como Monarco, Dudu Nobre, D. Ivone Lara, Alcione, Moacyr Luz, Diogo Nogueira, Zeca Pagodinho e outros bambas. Não podia ser diferente: Janaína Moreno foi feita da cabeça aos pés de pura arte serelepe. Transita do samba ao skate, da bossa nova ao cinema, do bambolê ao teatro passando pelas castanholas e pandeiros sem nunca deixar de lado o inesquecível charme de sua voz Festeira.